sexta-feira, 16 de março de 2012

Separação entre igreja e estado ou entre fé e política? por Davi Charles Gomes

Separação entre igreja e estado ou entre fé e política?

O estado opera no universo político, pautado pelo que é benéfico, prático e oportuno. Mas este universo não é autônomo, não existe no vácuo e não possui dentro de si mesmo uma base para o estabelecimento de verdades norteadoras transcendentes. A igreja opera no universo da fé, pautada por aquilo que crê ser a verdade, e destarte seu universo engloba em de si o universo da política, pois é neste âmbito que operam os conceitos norteadores e as crenças transcendentes quanto à verdade, justiça, certo e errado, bem e mal.

Davi Charles Gomes (2000)



"A ética cristã dita que fé e política não se misturam!" Com essa frase, um líder religioso (que quase sempre tinha algo a dizer sobre política) expressava uma ideia corrente, mas que pode estar equivocada tanto do ponto de vista político quanto do religioso. O momento das eleições é propício para refletir sobre a possibilidade desse equívoco e assim compreender a relação ética entre as crenças religiosas e a vivência política, desde a simples condição de eleitores até a nobre carreira política (nobre porque as Escrituras Sagradas dizem que os nossos líderes políticos, para bem ou mal, são "ministros de Deus"! - Rm 13. 1-4).




Talvez, um bom começo seja distinguir a separação crucial entre Igreja e Estado -- tão importante na vida pública e social de uma nação democrática moderna -- e o sofisma envolvido em uma suposta separação entre fé e política. Esse parece ser um passo necessário na busca de princípios éticos norteadores para o exercício da atividade política.




Pensar em igreja e estado (no sentido moderno secular) é estabelecer uma relação de cunho primariamente institucional, colocando em um mesmo plano duas esferas de autoridade delimitadas por horizontes distintos: O estado é uma esfera soberana, ainda que não autônoma; sua obrigação institucional é para a sociedade em geral. Seu universo é a política e consiste daquilo que é benéfico, prático e oportuno para a sociedade que o constitui. A igreja como instituição -- e por extensão todas as instituições religiosas -- também representa uma esfera soberana nas relações humanas, cujo universo é o da fé, consistindo de crenças quanto às verdades transcendentes e de práticas consequentes. Sua obrigação é distinta da do estado, pois sua missão não é meramente uma de benefício, praticidade e oportunidade, mas, sim, de crença professada como verdade norteadora.


Os dois âmbitos institucionais, ou seja, o estado e a igreja, devem ser mantidos distintos, ainda que marcados por certa reciprocidade. São esferas soberanas, como dizia o primeiro ministro holandês (e teólogo) Abraham Kuyper (1837-1920). Quando toma sobre si a responsabilidade de institucionalizar certas crenças, verdadeiras ou não, o estado usurpa de Deus a soberania sobre uma esfera que foge do seu escopo e do mandato divino (Rm 13.4). Semelhantemente, quando a igreja abandona a esfera que é sua de direito, quando deixa de proclamar suas crenças quanto ao que é a verdade e se coloca na posição de lutar em seu próprio benefício, pautada simplesmente pelo que é prático e oportuno, a igreja abre mão de sua verdadeira identidade e se transforma-se em uma monstruosidade.




Aqueles que compõem a igreja como instituição compartilham um horizonte comum, delimitado por crenças particulares quanto às verdades transcendentes. Os que compõem um estado (seus cidadãos) também compartilham um horizonte comum, mas este é delimitado pela arbitragem das relações legais, sociais e econômicas e pela promoção do bem comum. A confusão nas relações estado e igreja, com seus horizontes distintos, deturpa tanto o estado como a igreja.


A questão muda, no entanto, se disser respeito à relação entre fé e política. O âmbito político é o universo no qual o estado opera; o âmbito da fé é o universo dentro do qual as instituições religiosas, confessionais ou não, operam. Esse último é o universo cujos contornos são traçados por aquilo que é crido como sendo verdadeiro -- e vale lembrar que, a despeito do "inclusivismo" moderno, o conceito de verdade continua sendo, por natureza (e por definição), exclusivista.


Nesse ponto, a relação deixa de ser horizontal e torna-se, então, hierárquica (veja Mt 22.21): O estado opera no universo político, pautado pelo que é benéfico, prático e oportuno. Mas esse universo não é autônomo, não existe no vácuo e não possui dentro de si mesmo uma base para o estabelecimento de verdades norteadoras, transcendentes. A igreja opera no universo da fé, pautada por aquilo que crê ser a verdade e, destarte, seu universo engloba o universo da política, pois é neste âmbito que operam os conceitos norteadores e as crenças transcendentes quanto à verdade, justiça, certo e errado, bem e mal.




Tais afirmativas podem ser desconcertantes, mas não são difíceis de entender: A identificação daquilo que é prático e oportuno pode ser meramente política. Mas como é que se define, no âmbito estritamente político, o que é verdadeiramente benéfico? É aqui que o universo da fé fornece as crenças básicas quanto ao que é verdadeiro, justo, certo, e assim, se relaciona de forma hierárquica com o âmbito político. Negar as verdades e os valores transcendentes, abjurar terminantemente o âmbito da fé e afirmar a supremacia do universo social e político, são coisas do âmbito da fé! Para citar mais uma vez o estadista holandês: "Nenhuma estrutura política que não se baseie em específica concepção religiosa ou anti-religiosa torna-se dominante" (Stone Lectures, Princeton, 1898).


Fonte: http://coramdeo.com.br/artigos/separacao.htm
 
Divulgação: http://cultura-calvinista.blogspot.com/

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